vestígios de perversidade

texto crítico da exposição individual Princípia. 2015

 

 

As obras de Tchelo presentes na mostra Princípia confirmam o papel essencial que a combustão ocupa em seu processo de trabalho. O ato de queimar, ação de caráter intrinsecamente violento e destrutor, norteia a sua produção plástica recente. Assim, é desagregando, desfazendo e consumindo que o artista estabelece as bases, um tanto perversas, para o seu próprio fazer artístico.

 

Os lápis carbonizados de Armas talvez sejam o exemplo mais representativo da importância da descomposição e da destruição como ações inerentes ao seu modus operandi. Neste caso, o artista ataca o lápis, o que pode parecer uma negação veemente, como sugerido pelo título, da ferramenta mais emblemática e tradicional do desenho. Uma série de lápis são queimados ao ponto de racharem e tornarem-se "lápis de cinzas", revelando unicamente nas frestas que neles foram abertas, restos intactos de grafite que aparecem como pontas de lança. É queimando o lápis que o artista constitui uma tautologia visual do desenho justapondo dois dos seus materiais de base: o grafite e o carvão.

 

Em outros casos, o artista produz o seu próprio carvão incinerando parcial ou completamente objetos de madeira e inserindo-os em disposições que induzem a sua fricção com a superfície branca e lisa da parede. Tanto Espiral, Pêndulos quanto Pontes, constituem desenhos-rastros de um movimento efetuado por esses objetos queimados que se encontram em equilíbrio seja, respectivamente, nas duas primeiras obras, por estarem suspensos por um cordão ou ainda, no caso da terceira, pela tensão das duas extremidades de hastes de madeira contra a parede.

 

Os traçados resultantes do contato desses objetos com a parede são predeterminados por situações supostamente sujeitas a princípios racionais e lógicos. Em Espiral, o diâmetro dos círculos concêntricos que formam a espiral, por exemplo, são proporcionais ao tamanho do cordão utilizado à qual está suspensa a esfera de madeira. Já o traçado pendular em Pêndulos é condicionado pela força empregada pelo pulso do artista quando lançou as esferas de madeira carbonizadas. Em Pontes, ainda, a resistência das longas hastes de madeira tensionadas contra paredes opostas da sala se contrapõem à gravidade que as atiram para baixo. No entanto, o traçado parece vacilar e as curvas são imperfeitas. Se o artista instaura um sistema de regras nesses jogos de fazer desenhos, o resultado sempre deixa vazão ao aleatório, aos caprichos da mão, sujeita a falhas e ao cansaço.

 

Apesar desses desenhos-rastros se encontrarem em uma posição estática, eles sugerem e remetem ao trajeto que os originou, possibilitando ao espectador retraçar mentalmente essas linhas. A única obra que incorpora efetivamente o movimento é o vídeo Adágio para Cordas e Cabos no qual desfilam o que parecem ser cabos elétricos, numa constante vibração que foi interpretada como partitura para uma composição sonora. A imagem constantemente se faz e desfaz, surge na tela para rapidamente escapar pelos limites do quadro. Esse hipnótico oscilar remete a ondas sonoras ou magnéticas, à forças invisíveis e inefáveis, em última instância, aos incessantes esquivos sinuosos de chamas.

 

Assim, o fogo – e o que ele implica em termos de consumação e destruição – parece ser um princípio motor por trás desses trabalhos de Tchelo, tanto na eterna decomposição da imagem em Adágio para Cordas e Cabos, quanto na intencional cremação de lápis em Armas ou ainda pelo fato de que as cinzas que o artista mesmo induziu constituem a condição de existência de seus desenhos Espiral, Pêndulos ou Pontes. Essas cinzas aparecem como uma fumaça inconstante, rastros fugitivos da trajetória de objetos incandescentes, vestígios frágeis que durarão o tempo de uma exposição.

 

 

Olivia Ardui